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Foi cidadão americano, mas acabou deportado. Criminoso nazi morreu sem enfrentar a justiça

Lusa

Jakiw Palij tinha 95 anos e chegara à Alemanha no ano passado, após ser-lhe retirada a cidadania norte-americana, que conseguiu obter mentindo. Nascido na Polónia, foi guarda no campo de trabalhos forçados de Trawniki, onde morreram mais de 6 mil judeus

“Morreu um homem malvado”. O comentário à Associated Press partiu do rabi Zev Meir Friedman, numa reação à morte do criminoso de guerra Jakiw Palij, antigo guarda num campo de concentração nazi - nunca formalmente acusado - e que chegou a obter a nacionalidade norte-americana.

Palij tinha 95 anos e morreu num asilo de Ahlen, na Renânia do Norte-Vestfália, depois de a Alemanha o ter acolhido em agosto do ano passado. Foi o ponto final de um longo processo que permitiu ao ex-nazi viver em território dos Estados Unidos quase 60 anos, primeiro à custa de uma mentira e depois pela dificuldade de se lhe encontrar um destino, quando desmascarado e expulso.

Nascido na Polónia, Jakiw Palij emigrou para os EUA em 1949, fixando residência em Nova Iorque. Sob a alegação de que trabalhara na quinta do pai, como agricultor, durante o período da Segunda Grande Guerra, não levantou suspeitas e acabou por conseguir a cidadania, vivendo tranquilo durante vários anos.

Uma investigação de um reputado historiador do Museu norte-americano do Holocausto havia de trazer à luz a verdade. Palij esteve ao lado das SS e servira em 1941 no campo de trabalhos forçados de Trawniki, onde morreram mais de 6 mil judeus. O Departamento de Justiça abriu um investigação, confirmou os factos, pelo que a nacionalidade norte-americana acabou por lhe ser retirada em 2003.

Mas não foi fácil a deportação. Depois de nenhum país aceitar acolher o ex-nazi, os Estados Unidos pressionaram a Alemanha, argumentando que tinha a “responsabilidade moral” de o fazer.

Deportação assumida como prioridade por Trump

Palij rumou a terras germânicas no ano passado, numa altura em que já quase todos davam por certo que acabaria por morrer nos EUA, numa “dolorosa recordação para os americanos que lutaram contra os nazis ou para quem perdeu os seus entes mais queridos durante o Holocausto”, conforme ficou escrito numa carta que em 2017 foi enviada por 21 membros do Congresso ao então secretário de Estado, Rex Tillerson.

A deportação do ex-guarda acabou por ser assumida como uma prioridade pelo Presidente Trump, que, à Fox News, sublinhou ter conseguido resolver o que deixaram por fazer as administrações Bush e Obama.

Para muitos, a morte de Jakiw Palij chega sem que se tenha feito justiça. As autoridades alemãs consideraram não existirem provas suficientes para avançar com uma acusação e nenhum processo judicial foi aberto.

“A dificuldade não está tanto em descrever os assassinatos, os massacres individuais, as funções desempenhadas pelos que trabalhavam no campo de concentração, mas em determinar a responsabilidade de cada indivíduo”, afirmou o responsável pelo Departamento Central de Investigação dos Crimes de Guerra, Jens Rommel, citado pela NPR.

Apesar de, nos últimos anos, a Alemanha ter julgado e condenado vários ex-membros das SS, como John Demjanjuk, Reinhold Hanning e Hubert Zafke, nenhum foi preso devido ao seu estado de saúde.